A quimera da mentira

Minha virtude foi reforçada pela mesma coisa com que o ataque; convêm-lhes ser mostrada e posta à prova; nada compreende o grande que é melhor que aqueles que sentiram suas forças ao combate-la; nada conhece melhor a dureza da pederneira que aqueles que o golpeiam. Mostro-me como uma rocha solta no meio do mar agitado, que as ondas não deixam de açoitar por qualquer lado que se movam. E não que por ele se comovem nem a desgastam enquanto séculos de contínuos embates. Assalta, acomete:  os vencerá resistindo.

(De Vita Beata, XXVII) – e noutro lugar: “A filosofia é o estudo da virtude, porém pela própria virtude mesmo”. (Epst, LXXXIX).

Em tempos de valores cada vez mais líquidos, é desgastante manter firme uma postura virtuosa. Frequentemente me questiono sobre como as pessoas possuem uma facilidade enorme de construir e viver mentiras, sabe? O indivíduo chega em um nível tão profundo da farsa que aquilo se torna um verdade absoluta no seu interior, chegando a defender a calúnia com unhas e dentes, mesmo que isso traga consequências terríveis para os envolvidos.

A quimera gerada na gestação da mentira é um monstro horrendo de se combater, isso quando o combate é possível, já que na esmagadora maioria dos casos, a bestialidade da mentira corrompe e impede qualquer meio de recuperação sem grandes sequelas.

Em um sábio ditado popular é dito que a mentira tem pernas curtas. A sabedoria implícita neste ditado é absurda. Tudo o que é falso e mentiroso tende a ser descoberto, cedo ou tarde. Quem tem pernas curtas não consegue dar grandes passos e por isso não pode ir muito longe, mas a grande jogada no ditado está justamente nisso, nas pernas curtas. Mesmo não indo muito longe na longevidade, a mentira tem uma capacidade extremamente veloz de envolver o enganador em uma teia de mentiras sem volta, onde ele precisa contar mais e mais mentiras para sustentar a “mentirinha” inicial. É, geralmente, um caminho sem volta.

As teias que sustentam o mosaico de uma mentira são fibrosas, fortes e pegajosas. O tecelão fica tão conectado aos fios, que estes fazem parte da sua própria complexa estrutura de veias, agindo diretamente na distribuição dos nutrientes, em cheio na corrente sanguínea. Os pensamentos e ações precisam ser minuciosamente pensados para não deixar pontas soltas e manter a rede de falácias. O coração se corrompe a cada pulsar vital. O vermelho escuro e espesso fluído vital circula contaminado, carregando cada mililitro de vergonha e corrupção.

Onde mora o descanso mental do miserável que assim decide viver? Pode ele, deitar em paz e dormir sem o peso na consciência? Pode baixar a guarda do pensamento que vive em constante alerta para sustentar o frágil castelo de mentiras? A prisão mental daqueles que se sujeitam a respirara o ar tóxico dos vales da mentira é um vasto salão fortemente iluminado, onde cada pilar de sustentação fornece uma sombra gélida de desespero e inquietude, temendo para sempre as forças de uma luz reveladora.

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